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Braço direito de Riedel desembarcou do jato da família dona da JBS, mesmo grupo que delatou Reinaldo Azambuja à PF

Aeronave PS-VFA é operada por holding cujos sócios são a filha do fundador da JBS e o presidente da J&F, controladora do frigorífico. Na chapa governista, Riedel e Azambuja disputam a reeleição e o Senado; a investigação que nasceu da delação dos irmãos Batista só foi encerrada em junho

O candidato do Novo ao governo, deputado estadual João Henrique Catan, publicou na noite de segunda-feira (7) um vídeo em que acusa o secretário de Governo e Gestão Estratégica, Rodrigo Perez Ramos, de ter desembarcado no Aeroporto Internacional de Campo Grande em um jato executivo ligado à família Batista, controladora da JBS, por volta do meio-dia desta segunda-feira. O jatinho tem valor de cerca de R$ 75 milhões e autonomia de mais de 3 mil quilômetros, podendo ir de São Paulo a Buenos Aires sem escalas.

As imagens mostram um homem de camisa polo escura descendo de um Embraer Phenom 300 de matrícula PS-VFA e retirando malas da aeronave, acompanhado por outro homem de terno que o vídeo identifica como “segurança da governadoria”.

A peça abre com a frase “enquanto o governador sobe no trio elétrico pra prometer o combate à corrupção”, referência ao ato de 7 de Setembro na Afonso Pena, do qual Eduardo Riedel (PP) participou.

Dados do plano de voo da aeronave indicam que ele veio da pista privada rural na região de Iaciara (Goiás), a mesma pista que é o segundo destino mais frequente do avião e fica no município-sede rural da Agroparana, empresa de pecuária dos mesmos sócios da VLBM.

O PS-VFA é um Embraer EMB-505 (Phenom 300) fabricado em 2024, com 9 assentos de passageiros, cujo proprietário é o Bradesco Leasing S.A. — Arrendamento Mercantil, em contrato de leasing registrado em 27 de março de 2025. O operador é a VLBM Participações Ltda., holding com sede em São Paulo.

A VLBM foi aberta em 4 de outubro de 2005 e tem capital social de R$ 75,1 milhões. Segundo os dados cadastrais da Receita Federal, seus sócios são Valére Batista Mendonça Ramos, sócia-administradora, Fabrine Batista Ramos Moreira e Aguinaldo Gomes Ramos Filho.

Valére é filha de José Batista Sobrinho, o “Zé Mineiro”, fundador da JBS, e irmã de Joesley e Wesley Batista. Aguinaldo Gomes Ramos Filho é, desde abril de 2021, o diretor-presidente da J&F, a holding da família que controla a JBS, e integra o conselho de administração do frigorífico. Ele já presidiu a Eldorado Brasil Celulose, em Três Lagoas, e as operações da JBS no Paraguai e no Uruguai.

A holding também é sócia de uma empresa de criação de gado de corte e de uma armazenadora, ambas de nome Agroparaná, de onde os dados indicam que o avião veio na tarde desta segunda-feira com Perez a bordo.

Quem é Rodrigo Perez?

Administrador formado pela UFMS, Rodrigo Perez Ramos era empresário do ramo da comunicação e foi um dos articuladores da campanha de Riedel em 2022. Assumiu a Segov em 1º de fevereiro de 2024, no lugar de Pedro Caravina, que voltou à Assembleia Legislativa. A pasta é a que faz a articulação política e institucional do governo, com os demais Poderes, a União, os municípios e organismos internacionais, e é também a que abriga a Secretaria-Executiva de Comunicação, responsável pelos contratos de publicidade do Estado. Perez é tratado nos bastidores como o homem de confiança do governador.

Em eventos internacionais, como em Nova York, Perez é visto em reuniões com a J&F e também foi visto no leilão Terra Prometida, em Tocantins, em maio deste ano, com Agnaldo e o deputado federal Arthur Lira (PP-AL).

A JBS no governo Riedel

Desde que Riedel assumiu, o grupo dos Batista multiplicou anúncios no Estado. Em outubro de 2023, Wesley Batista anunciou em Paris R$ 26,8 bilhões de investimentos em Mato Grosso do Sul até 2026, entre eles a segunda linha da Eldorado, em Três Lagoas (R$ 20 bilhões), a ampliação da fábrica da Seara em Dourados (R$ 1,3 bilhão) e a mineração em Corumbá (R$ 5,5 bilhões). Em março de 2024, a JBS anunciou R$ 150 milhões para dobrar a produção da unidade Campo Grande II e transformá-la na maior planta de bovinos da América Latina; em abril, o presidente Lula visitou a fábrica guiado por Wesley Batista, ao lado do governador.

Em dezembro de 2025, a Câmara de Campo Grande aprovou, e em janeiro deste ano a prefeita Adriane Lopes (PP) sancionou, isenção de ISS sobre as obras da JBS no Jardim Tarumã, na saída para Sidrolândia, e de IPTU por nove anos, benefício municipal, não estadual, mas concedido por uma gestão aliada de Riedel.

Em agosto, a Câmara de Conciliação Fiscal do município negou, por unanimidade, um pedido da empresa para renegociar dívida de IPTU com desconto, citando a “elevada capacidade econômica da empresa e o inadimplemento tributário reiterado”.

No nível estadual, a renúncia fiscal prevista saltou de R$ 5,58 bilhões em 2023 para R$ 11,95 bilhões em 2026, alta de 114%, com a indústria de transformação, onde estão os frigoríficos da JBS, Marfrig e Boibras, passando de R$ 3,17 bilhões para R$ 6,83 bilhões entre 2025 e 2026.

Quanto disso é da JBS, o Estado não informa: o valor do benefício de cada empresa é protegido pelo sigilo fiscal do artigo 198 do Código Tributário Nacional. Em maio de 2026, a Semadesc registrou que a JBS sinalizou ampliar de 60 mil para 90 mil aves/dia a unidade de Caarapó dentro do programa Frango Vida, que devolve de 32% a 50% do ICMS aos frigoríficos enquadrados.

O peso do nome JBS na chapa de Riedel

A relação da JBS com o poder em Mato Grosso do Sul tem um passado que a chapa governista prefere não revisitar. Reinaldo Azambuja (PL), candidato ao Senado na coligação de Riedel e de quem Riedel foi secretário de Governo, foi o principal alvo em Mato Grosso do Sul da delação dos irmãos Batista, homologada em 2017.

A partir dela, a Polícia Federal deflagrou em 12 de setembro de 2018 a Operação Vostok, com buscas na Governadoria. Em outubro de 2019, Wesley Batista retificou seu depoimento para dizer que R$ 6,5 milhões que antes atribuíra a “um ex-governador” haviam sido pagos, na verdade, a Azambuja, por meio de oito notas fiscais lançadas em janeiro e fevereiro de 2016 por serviços nunca prestados. O filho de Reinaldo, Rodrigo Souza e Silva, chegou a ser preso pela PF em setembro de 2018.

Em julho de 2020, a PF indiciou o então governador e o filho Rodrigo por corrupção passiva, lavagem e organização criminosa, calculando R$ 67,7 milhões em propina, camuflada, segundo o inquérito, em notas frias do frigorífico Buriti, em troca de incentivos fiscais que teriam poupado a JBS de R$ 209,7 milhões em ICMS.

Em 30 de setembro de 2020, a vice-procuradora-geral Lindôra Araújo denunciou Azambuja e outras 23 pessoas ao STJ. A Justiça bloqueou R$ 277,5 milhões em bens do ex-governador, do filho e da Agropecuária Taquaruçu.

Azambuja sempre negou e chamou os delatores de “vagabundos”. O caso desceu à Justiça estadual quando ele deixou o cargo, em 2023, e nunca chegou a uma sentença. Em outubro de 2025, o ministro Dias Toffoli, do STF, trancou a ação penal contra o ex-governador por “violação à razoável duração do processo” e “insuficiência do substrato probatório”.

Em abril de 2026, o TJMS anulou os atos da ação penal contra os demais 21 réus, entre eles o filho de Azambuja, e mandou o caso recomeçar na Justiça Eleitoral. Em 2 de junho, a investigação contra Azambuja foi formalmente encerrada, com parecer do próprio Ministério Público Federal pelo arquivamento, depois de oito anos, mais de 3 mil contas quebradas e cerca de 300 depoimentos. No mesmo dia, porém, a 6ª Turma do STJ manteve o bloqueio dos R$ 277,5 milhões, por entender que há “indícios suficientes de autoria e materialidade” para a medida cautelar.

Foi nesse ambiente que a JBS deixou de ser tratada como problema e voltou a ser tratada como parceira. E hoje oferece carona e passeios com o braço direito do governador desembarcando de um jato da família Batista.

Voar em aeronave particular de terceiros não é, por si, irregular; mas, se a viagem tiver relação com a função pública, o Código de Conduta da administração estadual e a Lei de Improbidade tratam do recebimento de vantagem de quem tem interesse em decisão do governo, e a JBS é beneficiária de incentivos fiscais estaduais e municipais. Se a viagem for privada, cabe ao secretário explicar por que um segurança da Governadoria o acompanhava e o ajudou com várias malas descidas do avião vindo da fazenda em Goiás.

Opositor

Catan já foi condenado pelo TRE-MS, em outubro de 2025, por outro vídeo contra Riedel, a série “Os Intocáveis MS”, por ter usado inteligência artificial sem rotulagem e impulsionado conteúdo negativo.

A coligação de Riedel também recorreu à Justiça Eleitoral para tentar barrar ataques do adversário. Neste caso, as imagens têm aparência de flagrante real, e a reportagem confirmou os dados cadastrais do avião. fonte investigams
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