Em Mato Grosso do Sul, 16 municípios enfrentam uma epidemia de chikungunya. De acordo com o boletim epidemiológico mais recente, divulgado pela SES (Secretaria de Estado de Saúde) em 1º de abril, já foram confirmados 1.764 casos da doença. Entre os pacientes, 37 são gestantes.
A infecção pode causar riscos significativos e até deixar sequelas em qualquer paciente, mesmo na ausência de comorbidades. No caso de gestantes, porém, a preocupação é ainda maior, já que tanto a ação direta do vírus quanto os sintomas associados, como a febre, podem desencadear complicações para a mãe e o bebê.
Para esclarecer como a chikungunya atua no organismo e quais são seus possíveis impactos durante a gestação, o Midiamax conversou com a ginecologista e obstetra Patrícia Brois, que detalhou os efeitos da doença e os cuidados necessários caso a mãe teste positivo para a doença.
Consequências da chikungunya
Segundo a médica obstetra, gestantes infectadas pelo vírus podem apresentar risco significativo de parto prematuro e até de aborto. Em alguns casos, o bebê pode nascer com baixo peso ou o quadro evoluir para óbito neonatal.
O maior perigo, porém, ocorre quando a infecção acontece no final da gestação, situação que pode corresponder a até 50% dos casos de transmissão vertical, ou seja, quando a doença é transmitida da mãe para o filho.
“Para o bebê, pode haver febre alta, distúrbios neurológicos, paralisia cerebral, sequelas neurológicas e óbito neonatal. As malformações não estão relacionadas a efeitos teratogênicos [quando agentes externos, como infecções, causam alterações estruturais no feto], mas podem envolver alterações neurológicas. Por isso, o mais importante é prevenir a picada do mosquito Aedes aegypti“, pontua.
Com quais sintomas devo me preocupar?
O período mais crítico ocorre quando a mãe adquire a infecção no período intraparto, que vai do início do trabalho de parto até o nascimento do bebê.
“O recém-nascido pode apresentar manifestações mais tardias, entre o terceiro e o sétimo dia de vida. Os sintomas incluem dor aguda, febre, irritabilidade, dor difusa, edema nos membros e extremidades, erupções cutâneas, meningoencefalite, síndromes hemorrágicas, diarreia e alterações hemodinâmicas.”
Já nas gestantes, um sintoma característico é a febre, que pode, inclusive, desencadear complicações, como o parto prematuro.
E o repelente, está liberado?
Segundo a doutora Patrícia, o uso de repelente é mais que recomendado, sendo um grande aliado na prevenção da chikungunya. Antes de comprar, é importante observar o rótulo. O ativo com maior eficácia e longa duração, seguro para gestantes e crianças acima de seis meses, é a icaridina, em concentrações entre 20% e 25%.
“Ela oferece proteção prolongada, durando de 10 a 12 horas. Há também o DEET, que é seguro para gestantes, mas possui menor duração, exigindo reaplicações mais frequentes”, explica.
A especialista também comenta sobre repelentes naturais e caseiros, geralmente à base de citronela, andiroba, cravo e óleos essenciais. No entanto, esses produtos têm duração média de apenas 20 minutos, o que exige reaplicação ainda mais constante.
Cuidados
Mato Grosso do Sul deve receber mais de 46 mil doses da vacina contra a chikungunya, ainda em fase de testes pela Anvisa. Gestantes não fazem parte do público-alvo e não serão imunizadas, o que reforça a necessidade de prevenção contínua.
Caso a gestante apresente sintomas como febre alta, dores articulares intensas, inchaço nas articulações ou manchas vermelhas na pele, é fundamental procurar atendimento médico com urgência.
Segundo a especialista, o tratamento para gestantes inclui medicamentos para alívio dos sintomas, além de medidas de suporte, como repouso e hidratação intensa com água, sucos naturais, água de coco ou soro oral.
Evitar a proliferação dos mosquitos também é importante. Por isso, evitar o acúmulo de água em pneus, vasos, caixas d’água e outros materiais é primordial para garantir uma gestação saudável e segura.
O que é a chikungunya?
A chikungunya é uma arbovirose causada pelo vírus CHIKV e transmitida pela picada da fêmea do mosquito Aedes aegypti infectada. O vírus foi introduzido nas Américas em 2013, quando provocou epidemias em diversos países.
Os sintomas são semelhantes aos da dengue, mas costumam ser mais intensos e duradouros. Febre alta e dores articulares marcantes são características da doença, podendo persistir por mais de 15 dias. Em mais da metade dos casos, as dores nas articulações podem se tornar crônicas e durar anos.
Além disso, a doença pode provocar complicações cardiovasculares, renais, dermatológicas e neurológicas, incluindo encefalite, mielite, síndrome de Guillain-Barré e outras condições graves. Em casos mais severos, pode haver necessidade de internação e risco de morte.
Diante de sintomas, a recomendação é procurar atendimento médico para diagnóstico adequado. Os exames laboratoriais e testes diagnósticos estão disponíveis pelo SUS (Sistema Único de Saúde).
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