Por meio de um comunicado ao mercado, a Petrobras anunciou nesta quinta-feira (28) que desistiu das negociações da UFN-III (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados), situada em Três Lagoas, com o grupo russo Acron. O acordo era dado como certo e já havia sido anunciado antecipadamente pela estatal e pela ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina.
A empresa brasileira alegou que o processo de venda não avançou, “tendo em vista que o plano de negócios proposto pelo potencial comprador, em substituição ao projeto original, impossibilitou determinadas aprovações governamentais que eram necessárias para a continuidade da transação”.
“Assim, a companhia está realizando os trâmites internos para encerramento do atual processo de venda e lançamento de um novo tão logo possível. A Petrobras reforça o seu compromisso com a ampla transparência de seus projetos de desinvestimento e de gestão de seu portfólio e informa que as etapas subsequentes do projeto serão divulgadas de acordo com a Sistemática de Desinvestimentos da companhia”, afirma a Petrobras.
Fertilizantes e a guerra
O negócio da UFN-III, embora tenha sido comemorado prematuramente pelas autoridades de Mato Grosso do Sul, era visto com certa desconfiança por conta da guerra na Ucrânia. Como previsto, a instabilidade econômica provocada por conta do conflito entre russos e ucranianos implicou no negócio com a Petrobras.
A senadora Simone Tebet, durante sessão deliberativa no Senado Federal no dia 9 de março deste ano, chegou a criticar a transação da UFN-III e a incapacidade do Brasil de ser autossuficiente neste quesito.
“A guerra na Ucrânia, embora ainda civil, é uma guerra mundial, porque ela atinge fortemente as economias do mundo, ela atinge porque estamos falando de uma grande potência, a maior exportadora de petróleo, uma das maiores de fertilizantes. E o Brasil, que é o maior produtor, um dos maiores exportadores do mundo de grãos, ainda não é autossuficiente naquele insumo tão necessário para a nossa lavoura, para diminuir o preço dos alimentos, para que a gente tenha mais comida na mesa do trabalhador brasileiro”, disse ela na ocasião.
Neste sentido, Tebet defendeu que antes de abrir qualquer negociação, era preciso buscar uma solução para que a UFN-III fosse concluída e iniciasse as operações com plena capacidade em Três Lagoas.
“Pois bem, infelizmente, veio o petrolão, veio a incompetência da gestão da Petrobras e a Petrobras naquele momento estava com dificuldade, quase quebrou, paralisou a fábrica. De lá para cá, a Petrobras resolveu, não vou entrar no mérito, fazer o desinvestimento de fertilizantes”, lamentou.
Plano
Ainda em março, com a guerra já em andamento, o Governo Federal lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, uma referência para o planejamento do setor de fertilizantes para os próximos 28 anos (até 2050), com objetivo de promover o desenvolvimento do agronegócio nacional e considerando a complexidade do setor, com foco nos principais elos da cadeia: indústria tradicional, produtores rurais, cadeias emergentes, novas tecnologias, uso de insumos minerais, inovação e sustentabilidade ambiental.
Atualmente, o Brasil ocupa a 4ª posição mundial com cerca de 8% do consumo global de fertilizantes, sendo o potássio o principal nutriente utilizado pelos produtores nacionais (38%). Na sequência, aparecem o fósforo com 33% do consumo total de fertilizantes, e o nitrogênio, com 29%. Juntos, formam a sigla NPK, tão utilizada no meio rural. Dentre as culturas que mais demandam o uso de fertilizantes estão a soja, o milho e a cana-de-açúcar, somando mais de 73% do consumo nacional.
Segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos, mais de 85% dos fertilizantes utilizados no país são importados, evidenciando um elevado nível de dependência de importações em um mercado dominado por poucos fornecedores. Essa dependência crescente deixa a economia brasileira, fortemente apoiada no agronegócio, vulnerável às oscilações do mercado internacional de fertilizantes.
A UFN-III
A construção da UFN-III em Três Lagoas teve início em 2009. No ano seguinte, um termo de acordo entre Estado e Prefeitura deu uma série de incentivos tributários para a Petrobras ativar a fábrica em Mato Grosso do Sul. Após a paralisação das obras e a saída da estatal brasileira do segmento de fertilizantes, em 2018, Estado e Prefeitura decidiram manter os benefícios fiscais aos compradores da planta industrial. A expectativa era de que a Acron fechasse a compra e retomasse as obras em julho, o que não vai ocorrer.
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